>
Maya é um work in progress de pessoa.
|
|
| |
|
|
| |
Levante o véu de Maya
Desvende-se
|
|
|
|
O véu de Maya
nem tudo aqui é real
|
|
| |
Sábado, Janeiro 31, 2009
Em trânsito
Medo de atravessar a rua. O que tem do outro lado. E se eu torcer o pé. E se o sinal abrir. E se não der tempo. E se eu pisar na poça. A rua é por onde se passa. E se eu passar despercebida. E se o tempo passar. Medo. E se nunca passar.Tanta coisa atravessada. A rua me atravessa e todos passam por mim sem medo. Eu estou do outro lado.
1:00 PM
|
Levante o seu véu
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
Crônica 2 ou Os limites são feitos de elástico
Cena 1
Quando vi, ele já estava lá, na beira do mar. Sozinho, se benzendo antes de entrar na água. Sem pernas, apoiado verticalmente sobre seu tronco (não sei se posso usar a expressão “de pé” para alguém que não os tem), depois de uma breve contemplação do oceano, caminhou sobre as mãos, se aproximou mais da água e mergulhou. Depois de algumas braçadas, logo estava boiando com aparência muito relaxada. Imaginei a sensação de liberdade que a água devia lhe dar. Leve, movimentos sem o atrito áspero que suas mãos deviam suportar diariamente para carregar seu meio corpo pela secura do mundo. Um amigo, com pernas, entrou um pouco depois. Conversaram, riram, o amigo saiu, sem oferecer ajuda, que também não foi pedida em nenhum momento. O homem sem pernas saiu do mar sozinho como entrou. Sozinho caminhou com as mãos pela areia de volta ao seu lugar. A mim pareceu uma pessoa bastante inteira.
Cena 2
Diante do monumento que homenageia alguma guerra estúpida – como são todas as guerras – os dois irmãos posavam para a foto. A estátua do soldado atingido se contorcendo de dor ao meio, de um lado o irmãozinho bem pequeno, com cara de quem está apenas obedecendo ordens sem entender nada, e do outro lado o irmão maior, sorridente (com um sorriso sacana, para ser mais exata), com uma das mãos em forma de revólver apontando para o irmão caçula. A vítima inocente, o homem agonizante e o assassino sádico. Era essa a cena. A mãe, rindo muito, fotografou, parecendo se divertir, como se fosse realmente normal um menino fingir que tem uma arma e que mata o irmão e que o adulto segurando o fuzil em sofrimento era banal. Talvez eu seja muito sensível. Talvez a vida esteja de fato repleta de banalidades a que dou importância demais. Mas a mim pareceu que faltava algo àquelas pessoas.
9:06 PM
|
Levante o seu véu
Sábado, Janeiro 24, 2009
Crônica ou “Meu nome é legião, porque somos muitos”
Eu estava comendo em um restaurante de shopping – por fome e conveniência, não por prazer – e do alto fiquei assistindo às pessoas passando – por prazer, dessa vez. De repente ele surgiu. De terno, chapéu e um lenço bem dobrado no bolso. Uma interferência anacrônica na paisagem. A figura do início do século XX contrastava muito com as vitrines do século XXI. Ele não era velho o suficiente para que o traje já tivesse sido pertinente em algum momento de sua vida, e nem jovem o suficiente para um arroubo de excentricidade. “Que personagem”, ouvi alguém dizer. Olhando ao redor, as outras pessoas pareciam todas tão iguais. A moda, em sua pior acepção, uniformiza tanto. Todos tinham a cara do verão 2009, ou a cara de alguma tribo definida em roupas que mais pareciam crachás e uniformizavam do mesmo jeito, só que em ilhas. Qual era a cara real delas? Diverti-me pensando em como seria se todos se vestissem conforme sua idade mental ou emocional. Ou se todos se vestissem como quem realmente gostariam de ser. Será que as pessoas ainda sabem do que realmente gostam? Parada pitoresca seria, mas o homem de terno e chapéu pareceu estranhamente íntegro nesse contexto.
Não sei qual seria meu personagem ali. Talvez eu já seja o meu personagem. Não sei se sei bem quem mora debaixo da fantasia. Há muitos, uns mais fortes que outros. Não sei se me servem ou se me possuem. Não sei qual o traje da minha integridade.
7:59 PM
|
Levante o seu véu
Sábado, Janeiro 17, 2009
Gala
Demais? Pode uma coisa ser boa demais, além do suportável? Ela não entendeu o que lhe estava sendo pedido com aquilo. Sentiu-se como um vestido de alta-costura, único e feito para ocasiões muito especiais, causando um efeito fantástico, mas inadequado para o dia a dia. Ela, que queria tanto simplesmente correr nua, era um vestido de gala. Então ia morar numa lembrança, numa foto, num suspiro nostálgico, mas não ia vê-lo de chinelos, barba por fazer, indo levar o cachorro para uma volta. Não ia vê-lo voltando suado da corrida na praia. Não ia vê-lo nunca mais porque era especial demais para ser gasta na rotina e aparentemente não combinava com a blusa furada que ele gostava de usar para dormir. Por que todos os dias não podem ser especiais? Sentiu-se uma princesa deserdada, ou uma Bela Acordada, única desperta enquanto todos no reino dormem e o que fazer então sozinha num castelo? Imaginou que defeitos poderia incorporar para ficar mais aceitável sem entender ainda o que ele quis dizer com “boa demais”, mas a porta bateu. A sala ficou vazia. O baile acabou. Um vestido de gala dobrado numa caixa no alto de um armário. Ele não queria mais dançar. Para ele, ela ficaria como uma lembrança de brisa e passou. Para ela, ele veio como um tornado. Em sua delicadeza, olhou para os escombros e sentiu-se de fato inadequada. Demais.
11:54 AM
|
Levante o seu véu
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
Bússola
N
um passo
e o caminho todo muda
S
tudo passa
eu também
L
descompasso
é ficar parado
O
voo no espaço
para caminhar
11:44 PM
|
Levante o seu véu
Sábado, Janeiro 10, 2009
Power Yoga
Às vezes crio discordâncias de propósito, apenas para quebrar minhas próprias resistências.
12:51 PM
|
Levante o seu véu
|
|
| |
|
|
|